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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Minha Mãe Maria. Uma Figuraça!

Desde a semana passada tenho pensado muito em minha mãe, Maria Benetazzo Pacini, que aniversariava no dia 14/09.
No dia 13/09, eu lhe dediquei a minha leitura e reflexão do Evangelho kardecista, que faço todas as segundas-feiras, há muitos anos.
Eu até tentei escrever este post no dia 14, mas não consegui, por isso faço agora minha homenagem a esta figuraça.
Antes de tudo, quero dizer que eu me sinto privilegiada por ter sido sua filha. E nestes dia tenho relembrado passagens de minha vida compartilhadas com essa mulher admirável que faleceu em 1972, quando eu tinha 27 anos.
Oficialmente ela estaria fazendo 101 anos, mas na verdade faria 103. E eu só soube disso há alguns anos, graças à revelação de um segredo familiar, feita por minha prima, Leda Maria Giuffrida Silva, filha de minha tia Eugênia e afilhada da minha mãe.
Contou-me ela que as irmãs Benetazzo alteraram seus registros de nascimento, deduzindo dois anos de suas respectivas datas natalícias, para que a minha tia Norma, a caçula delas, pudesse casar-se com o tio Wandick. Isto porque ele aceitava o fato de ela ser corcunda e não poder gerar filhos, mas não admitia unir-se a uma mulher mais velha - difícil compreender-se tal idiossincrasia nos dias de hoje!
Seja como for - e não sei como -, a verdade é que elas conseguiram alterar seus registros natais e assim evitaram que a sua querida irmã sofresse a frustração de não poder casar-se com seu amado, pelo fato de ela ser dois anos mais velha do que ele!
Assim sendo, na placa afixada no túmulo de minha mãe consta a data de 14/09/1909, como a de seu nascimento, pois durante toda a sua existência acreditávamos que ela nascera naquele ano. É mole?
Bem, após essa rápida digressão, voltemos a falar sobre a minha mãe.
Eu já relatei anteriormente que ela ficou viúva muito moça e dedicou a sua vida a criar seus 4 filhos. Também citei seu bom humor, sua sensibilidade, sua bela voz, seu gosto pela dança, seus dotes culinários e sua generosa receptividade.
Hoje quero estender-me um pouco mais sobre algumas características da personalidade desta virginiana, extremamente criativa, que mais parecia uma canceriana tal a dedicação com que exercia a maternidade.
Ela encarnava magnificamente bem o papel da mamma italiana, com seus vários matizes. Sabia manifestar desde o protótipo da mãe nutridora e zelosa até o da “mater dolorosa”, capaz de sacrificar-se pelos filhos.  
Desdobrava-se em agradar a cada um de nós, especialmente através de suas habilidades culinárias; posteriormente isto se estendeu aos que foram se integrando á família, sobretudo aos dois netos mais velhos, Daniella e Marcelo, com quem ela chegou a conviver respectivamente, 4 e 3 anos. 
Eles são filhos do meu irmão Fernando e de minha cunhada, Maria Helena, que moravam em uma das casas da família, vizinha à nossa. 
Eu me lembro que quando eles se mudaram para lá, minha mãe derrubou o muro entre as casas para facilitar-lhes o acesso à nossa. Afinal, como ambos trabalhavam e ficavam fora o dia todo, eles faziam suas refeições na minha casa. E a minha mãe, ajudada por todos nós, cuidava das crianças. 
Lembro-me também que ela fazia todas as vontades da Daniella e quando eu a questionava ela dizia: “Sinto muito, mas não aguento ver minha neta chorar”. Além disso,  munida de muita boa vontade paciência, ela fazia massinha para a Dani brincar. E ao ver sua neta interessadíssima na massa dizia orgulhosa: “Essa menina é uma verdadeira italianinha”. 
Ela preocupava-se com o Marcelo, pois ele demorou a falar. Eu me lembro de vê-la fazendo simpatias, que aprendera na sua infância, para tentar agilizar esse processo.
Aliás, a sua fé em forças sobrenaturais era uma de suas facetas mais interessantes. Ela costumava contar que quando meu irmão mais velho, o Gilberto, teve poliomielite o médico dissera que ele jamais voltaria a andar. Mas ela recusou-se a aceitar o diagnóstico. Recorreu a todos os meios possíveis para reverter a situação e conseguiu. O Gilberto não só andou, mas também se formou engenheiro, constituiu família e é um homem bem sucedido, embora há quase 15 anos esteja na cadeira de rodas (mas esta é outra história). 
Minha mãe não entregava os pontos com facilidade. Era uma guerreira, embora não fosse do tipo agressivo. Sua força era a da resistência, que tinha na persistência seu carro-chefe. Mas ela contava com outros poderosos recursos, tais como: a simpatia, a generosidade,  o acolhimento gentil e a capacidade de atuar como pólo agregador de toda a família extensa.  E como ela semeou muito amor à sua volta, também obteve uma colheita farta neste sentido.
Sensível, ela adorava ler, ouvir músicas românticas e era apaixonada pela 7ª arte. Ela nos levava, no mínimo duas vezes por semana, às salas de cinema de Santana, o bairro em que passei a maior parte de minha infância, a adolescência e o começo da juventude. Isto sem ignorar as inúmeras vezes em que íamos aos cinemas do centro  para assistir aos filmes que ela tanto amava.
Seu gosto era eclético, mas posso dizer que ela tinha predileção pelo cinema italiano, sobretudo pelos filmes de Rossellini, De Sica, Fellini e Visconti. E não perdia nenhum filme com a magnífica Anna Magnani ou com os magistrais Victório Gassmann e Marcello Mastroianni. Também era fã  dos dramas mexicanos, da Pelmex, com a Libertad Lamarque, dos musicais da Metro e das comédias com: Totó, Alberto Sordi, Fernandel Cantinflas.
Ela também prestigiava o cinema nacional, sobretudo os filmes produzidos pela Vera Cruz e pela Atlântida. Como boa interiorana, nascida em Piracicaba, ela não perdia os do Mazzaropi. Mas também gostava do Oscarito e da Eliana. Esta quase sempre fazia par romântico com Anselmo Duarte, mas também formava dupla com a bela Adelaide Chiozzo, que cantava, acompanhada por seu acordeão, uma música que minha mãe gostava de cantar comigo e com a minha irmã, Maria Elisa: "Beijinho Doce".
Devido à sua grande admiração por Libertad Lamarque, toda vez que ela fazia drama ou ensaiava algum tipo de chantagem emocional nós dizíamos: “Pelmex apresenta Maria Pacini em...”.  Ou então: “Olha a Libertad Lamarque em ação”. Ela simulava ficar zangada e depois dizia: “Vocês brincam, mas a minha vida daria um romance”.
E ela tinha razão. Foi uma vida com muitos altos e baixos, com momentos de muito sofrimento, mas também com outros de muita prosperidade, alegria e bom humor. Aliás, creio que se não fosse seu bom humor ela dificilmente suportaria as muitas e duras perdas e provas pelas quais passou nesta vida.
A última delas foi o derrame cerebral, hoje conhecido como AVC, que a deixou paralítica e a levou embora depois de 3 meses de muito sofrimento. E eu me lembro que mesmo doente ela procurava brincar com as pessoas que iam visitá-la, sobretudo com as que lhe levavam algum tipo de presente. Ela dizia: “Por que você não me trouxe uma bicicleta para eu poder dar umas voltas?
Por outro lado, havia momentos em que ela dizia para mim: "Filha, diga-me que isto não está acontecendo comigo. Este trapo de mulher não é a sua mãe". E eu bem que tentava animá-la, estimulando-a a esforçar-se para sair daquela cama e voltar a andar. Eu lhe dizia: "Repita comigo, mãe: Eu vou sair desta cama. Eu voltarei a andar". E ela repetia querendo, como eu, crer no milagre da cura. Mas com o passar do tempo ela foi ficando cansada e acabou não resistindo. 
Seu último gesto foi o V de vitória. Foi assim que ela se despediu de nós e desta vida!
Ah, que saudade da minha mãe, minha gente!!!
Encerro com alguns links para músicas que a minha mãe gostava de ouvir e de cantar, que servem para evidenciar um pouco do perfil desta mulher inesquecível. 
O 1º é para a alegre música napolitana "Comme facette mammeta",  que signifia "Como a sua mãe te fez", na voz de Luciano Bruno. O vídeo mostra sua participação no programa da Hebe.
http://www.youtube.com/watch?v=nReywB1kLic
O 2º remete a uma música de Totó que na realidade era um príncipe italiano. Apesar de ser famoso por suas comédias, ele é o autor dessa música belíssima chamada "Malafemmena". Minha mãe costumava cantá-la e se emocionava toda vez que o fazia.
http://www.youtube.com/watch?v=4ZnOmjj_Suw
O 3º remete á música "Anima e Cuore", que também é belíssima, mas eu optei por uma gravação relativamente recente. Trata-se de um dueto formado por Zizi Possi e Chico Buarque cantando em italiano. E o fiz porque ele resolveu gravá-la em homenagem ao seu pai, pois esta era uma das músicas prediletas dele. 
O 4º remete à música 'O Surdato 'Nnammuratto, que a minha mãe gostava especialmente por causa do refrão. Trata-se de uma cena do filme La Sciantosa  ("A Cantora") com Anna Magnanni, cuja interpretação é de grande dramaticidade. 
O 5º é para a música do filme Anonimo Venusiano, de 1970, na voz de Fred Bongusto.  
 http://www.youtube.com/watch?v=zwNp4XoppQg
O 6º remete à música "Cantando", na voz de Libertad Lamarque. O vídeo foi para homenageá-la quando completou 100 anos.  
http://www.youtube.com/watch?v=BI-tkQK7Igc
Eu também acrescento links para duas músicas que refletem meus sentimentos em relação à minha mãe. 
O 1º remete à música "Vitoriosa" na voz de Ivan Lins, que tem tudo a ver com a minha mãe, sobretudo o modo como ela se despediu desta vida.
http://www.youtube.com/watch?v=mm48WJHb1Zw 
 O 2º remete à música "Naquela Mesa", que Sérgio Bittencourt compôs em homenagem ao seu pai, Jacob do Bandolim. É uma belíssima gravação, com a Zélia Duncan, Hamilton de Holanda e Nilze Carvalho, que eu não conhecia. Apesar de ser a homenagem de um filho para seu pai, ela se aplica perfeitamente à relação filha-mãe.
http://www.youtube.com/watch?v=MiV8GarcHHo 























  



sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ah, Minhas Tias Angelina e Norma!



Ah, quanta saudade eu senti esta semana de minhas tias Angelina e Norma! Embora não fossem gêmeas, essas duas belas cancerianas aniversariavam no dia 07/07. E seus aniversários eram comemorados sempre na minha casa, onde a tia Angelina morava.


Tia Angelina






A tia Angelina era também a minha madrinha de crisma e foi a pessoa com quem convivi mais tempo sob o mesmo tempo.
Ela sempre morou com a minha mãe e a ajudou a criar seus 4 filhos. E quando a minha mãe faleceu, eu assumi a responsabilidade de cuidar dela, embora ela preferisse crer que era ela quem cuidava de mim. A verdade é que nós cuidávamos uma da outra, cada qual fazendo a sua parte. Nossa convivência foi pautada por muitas discussões, mas também por muito companheirismo e muita cumplicidade.
Ao contrário da minha tia Norma, e da minha mãe, a tia Angelina não era lá muito bem humorada e tinha certo tom autoritário em seu perfil, tanto é que um de seus cunhados, o tio Constantino, este sim um exemplo de bom humor incrível, costumava dizer que na minha casa predominava o parlamentarismo: minha mãe era a presidente, mas minha tia era a 1ª ministra e, como tal, queria exercer o poder de fato.
As duas disputavam nossa atenção, isso era indiscutível, mas também hilário. Assim sendo, quando uma delas começava a contar alguma história do passado a outra vinha para corrigir e no fim elas discutiam e a gente ficava sem saber o final da história. Era quase sempre assim!
Talvez por ter ficado solteira, ou por temperamento mesmo, minha tia Angelina era moralista e se a gente deixasse, ela impediria que saíssemos sozinhas com nossos namorados. Aliás, ela ficava horrorizada com as mulheres que apareciam de biquíni na televisão, sobretudo com as que desfilavam "quase nuas no carnaval". Era tudo “uma vergonha!!!" como ela costumava dizer.
Muito nervosa quando mais moça, ela foi adocicando seu jeito de ser com o passar do tempo, mas jamais perdeu o tom questionador e até mesmo beligerante em algumas situações. Decididamente ela era uma mulher de personalidade forte, mas também muito leal: ela não admitia que falássemos mal um do outro ou de algum parente. "Família é para ser respeitada e preservada", dizia esta canceriana.
Mas ela era também uma mulher muito prestimosa, sabia bordar e costurar muito bem e fez vestidos belíssimos para mim e para a minha irmã até entrarmos na adolescência. Extremamente organizada, ela mantinha a casa impecável, mas não era muito chegada a cozinhar, não. Essa era tarefa de minha mãe, exímia cozinheira.
Estou me lembrando, agora, de que toda a vez que minha mãe adoecia, nós 4 sabíamos o que nos esperava: comer bife de panela todo o santo dia até a minha mãe recuperar-se. Quando a minha mãe faleceu, ela teve que aprender a se virar na cozinha, mas por garantia eu também comecei a me aventurar nas artes da culinária. Foi só então que eu descobri que eu amo cozinhar! Mas para ser justa, a tia Angelina saiu-se muito bem também.
Há duas outras passagens que quero compartilhar com você:
A primeira foi quando a tia Angelina caiu da escada e fraturou a clavícula em 4 lugares e também o crânio. Logo depois que ela caiu, ela foi tirar pó dos móveis e limpar o banheiro como se nada fosse. Eu insisti em chamar o médico, mas ela não quis saber. Ocorre que no dia seguinte o quadro piorou e não teve jeito: ela teve que ser hospitalizada, pois o médico imediatamente desconfiou de um traumatismo craniano. Os exames comprovaram que ele estava certo.
Conhecendo-a muito bem, eu  lhe pedi  que não contasse a ela sobre a fratura no crânio; eu temia que o impacto dessa notícia pudesse agravar o quadro pelo fato de ela ser cardíaca; afinal, quando estava sendo hospitalizada, ela olhou assustada para mim e disse: “Rosa, gente velha quando cai morre!” E a saída que o Dr. Osmar, cunhado do meu irmão Fernando, encontrou foi engessar a perna dela, que não sofrera nenhum abalo, para mantê-la quieta na cama. Eu lembro que ela dizia para mim: “Que coisa estranha, eu não sinto nada na perna, mas eu fico um pouco tonta quando eu levanto a cabeça. Por que será?”. E eu lhe respondia: “É de ficar muito tempo na cama, tia, logo, logo passa”.  Depois eu contei a ela o que de fato ocorrera e rimos muito desse episódio; mas ela confessou que se tivesse sabido da fratura na cabeça poderia "ter morrido de medo", literalmente.
A outra passagem refere-se a uma das muitas broncas que ela dava em mim porque eu gostava de curtir a noite, dançando, bebendo e me divertindo com amigas (os) e namorado. Ela não se conformava com isso, sobretudo quando eu ficava de ressaca e  tinha que trabalhar no dia seguinte.
Aqui tenho que fazer um parêntese: A tia Angelina tinha o hábito de ir ao meu quarto todas as manhãs, para me acordar, embora soubesse que eu jamais tivera problemas para despertar no horário, mas ela gostava de fazer isso, então eu deixava. 

Em uma dessas ocasiões, quando ela foi me chamar eu reclamei de não estar me sentindo bem, devido à ressaca. E ela, reagindo  muito, mas muito indignada mesmo, disse-me : “Não tinha juízo aos 15, não teve aos 20, não tem aos 30: Sempre bêbada!!! Hahaha.
Quando eu cheguei à Lintas, agência em que trabalhava, e contei este episódio aos meus amigos, Inah Antunes Alves e Walter Pereira, eles riram muito e disseram que esta frase mereceria ser afixada em minha lápide.
Minha tia Angelina faleceu, em 12/04/1987, com mais de 80 anos e deixou uma saudade imensa, mas também muitas histórias, que me dão prazer em relembrar e em  contar; afinal, cada vez que o faço eu trago a tia Angelina mais perto de mim e permito que ela participe do meu presente, de algum modo.
Encerro com o link para uma das músicas que ela mais amava: “Asa Branca” com Luiz Gonzaga e outras feras.


Tia Norma

Minha tia Norma era a caçula de 9 filhas que a minha avó, Elizabetta Guaraldo, teve com o meu avô, Ferdinando Benetazzo, mas duas delas não sobreviveramTodas elas nasceram em Piracicaba, interior de São Paulo - a foto que ilustra esta postagem é do Salto de Piracicaba. 

A tia Norma tinha um problema na coluna que a tornara “corcunda” e em função disso, tinha baixa estatura. Seja por causa da doença ou pelo fato de ela ser a caçula, a verdade é que ela era a queridinha da família - não só das irmãs e cunhados, mas de todos os sobrinhos.

Com um jeito moleque, um senso de humor admirável, ela era a alegria das festas promovidas por nossa grande família.

Quando minha mãe se casou levou para morar com ela a minha avó e essas minhas duas tias, sendo que a tia Norma casou-se logo depois. Sei que ela morou em várias cidades, mas a casa da qual eu me lembro ficava em Presidente Altino. Minha tia morava numa espécie de vila construída para os funcionários do frigorífico Wilson onde o seu marido, o tio Wandick, trabalhava como veterinário. A gente ia para lá de trem e era uma delícia.

Ela não podia ter filhos, de modo que quase todos nós, seus sobrinhos mais novos, disputávamos a sua atenção e ansiávamos passar alguns dias em sua casa, cujo quintal dava para uma imensa área verde onde colhíamos amoras e outras frutas, bem como palmitos, legumes e verduras. Havia também o rio Tietê livre de poluição e navegável, onde era possível pescar.
Todos os fins de semana minha tia e o meu tio se hospedavam em minha casa. E nós aguardávamos felizes a sua visita porque ela iluminava o ambiente em que entrava.

Quando eu tinha 12 anos a minha tia Norma faleceu e foi muito sofrido para todos nós. Na verdade o sofrimento começou quando ela teve sarcoma. A notícia caiu como uma bomba na família. Ela e o meu tio mudaram-se para a minha casa para que ela pudesse ficar perto de suas irmãs e de seus sobrinhos. A doença era fatal, mas até o último instante todos nós esperávamos por um milagre.

Eu me lembro bem da última festa da qual ela participou: foi uma grande festa junina feita na minha casa com a colaboração de toda a família, o que totalizava cerca de 40 pessoas, bem como de alguns amigos e vizinhos queridos. Mesmo com o braço na tipóia – a doença começou pelo braço –, minha tia Norma, dançou não só a quadrilha, mas todos os ritmos que foram tocados na festa, inclusive o swing  - um ritmo derivado de jazz que fez muito sucesso nas décadas de 40 e 50, ao som de orquestras lideradas por bandleaders como Glenn Miller, Harry James, Tomy Dorsey, Duke Wellington, Benny Goodman, Count Basie, etc.

Também me lembro da tristeza que ela tentava disfarçar quando cantava “Que será, será”, música do filme “O homem que sabia demais”. Ela intuia que a hora dela estava chegando, mas caso nós a surpreendêssemos chorando ela pedia para ocultarmos o fato de seu marido, para não preocupá-lo ainda mais. 

Antes de morrer ela deixou determinado que presentes de Natal meu tio deveria comprar para cada um de nós. E ela se foi no dia 18/11/1957.

Embora ela tivesse falecido na minha casa eu não assisti ao seu velório, nem ao seu enterro. Isto porque no dia em que ela morreu quando fui tomar-lhe a benção antes de ir para a escola – hábito que tínhamos, minha irmã e eu -, senti a sua mão fria e imediatamente veio à minha mente a imagem do meu pai no caixão – fato que ocorrera quando eu tinha 4 anos. Fui para a escola chorando e naquele dia praticamente não houve aula na minha sala, pois as irmãs do colégio em que eu estudava, o Santana, pediram preces, abordaram o tema da morte e procuraram me consolar, pois eu não conseguia parar de chorar; eu "sabia" que naquele dia a minha tia  morreria. 

Quando voltei para casa, à tarde, minha mãe disse que era melhor eu ir para a casa de uns amigos, de modo que nem cheguei ver a minha tia; eles me contaram que ela já havia recebido a extrema-unção. De lá eu e minha irmã fomos para casa da minha tia Eugênia e foi então que eu tomei conhecimento do falecimento da tia Norma. O choque desencadeou em mim uma crise de ausência, mal que fora diagnosticado uns dois anos antes, por isso só voltei ao meu lar dois dias depois do falecimento dela. 


Foi muito difícil voltar para casa sabendo que eu não iria mais encontrar aquela figura pequena, tão querida e tão corajosa, que me recebia sempre  com um belo sorriso, querendo saber como tinha sido o meu dia na escola.
Encerro este relato deixando o link para o trecho do filme, "O Homem que sabia demais", em que Dóris Day canta “Que Será, Será”.




sábado, 8 de maio de 2010

É Dia das Mães!


Amanhã, 09/05, é Dia das Mães. Como eu não sou mãe, e a minha já faleceu há 38 anos, fico a relembrar momentos que vivemos juntas. 
 Minha mãe chamava-se Maria, por isso eu e minha irmã recebemos este nome complementar, afinal, nascemos em uma época que era comum dar às crianças dois nomes. Enquanto o meu nome homenageia a minha avó paterna, Rosa, o da minha irmã, Elisa, homenageava a minha avó materna. Assim sendo, as gêmeas que a minha mãe trouxe ao mundo chamaram-se: Maria Elisa e Rosa Maria.

 Loira, de olhos azuis, bonita, embora tivesse se tornado obesa com o passar do tempo, minha mãe era muito bem humorada, criativa, generosa, sensível, afetuosa e dedicada. Dotada de bela voz, ela cantava muito bem; já minha irmã e eu não fazíamos jus a ela neste quesito.
Minha mãe também era ótima dançarina embora eu só me lembre de tê-la visto dançar em casa, conosco. Ela tinha prazer em nos ensinar a dançar e costumava fazê-lo com muita alegria e bom humor. Havia sábados à noite, por exemplo, em que ela afastava para um canto a mesa da sala de jantar, ou até mesmo a da copa, e transformava o local em uma pista de baile; e ficávamos algumas horas naquela brincadeira agradável. Neste ponto eu me pareço muito com ela, pois herdei o mesmo gosto pela dança.

 Mas creio que a sua melhor performance foi mesmo no exercício da maternidade, pois apesar de não ter tido acesso a grandes estudos, soube criar com muita inteligência e dignidade a sua prole.

Tendo ficado viúva ainda moça, com 4 filhos para criar, minha mãe optou por montar nosso lar sempre em casas muito amplas, pois acreditava que assim ela estaria nos dando condições de receber amigos, sem que precisássemos sair para brincar na rua ou na casa alheia. E, em função disso, minha casa acabava se tornando ponto de encontro não só de amigos, mas também de familiares.
Penúltima filha de minha avó Elizabetta e do meu avô Ferdinando, um casal de imigrantes italianos, minha mãe tinha 6 irmãs e todas eram muito unidas - isso não significa que não houvesse discórdias e até mesmo alguns períodos de rupturas nessas relações, porém, nada que durasse para sempre.  
Além dos encontros semanais que ocorriam às quartas-feiras, quando todas as irmãs se reuniam lá em casa, havia as passagens rápidas no dia da feira, sábado, bem como outras visitas eventuais e até mesmo almoços aos domingos. Mas há algo que eu até hoje me lembro com bom humor: alguns de meus primos e, mais tarde, os filhos deles, vinham “passar férias” na minha casa, sendo que morávamos no mesmo bairro rsrsrs. E a minha mãe acolhia a todos com muita alegria e generosidade.  

Tal acolhida era extensiva aos amigos que fazíamos nas mais diversas fases da vida. Eu me lembro, neste exato momento, de duas passagens interessantes. 
A primeira envolve os amigos de meu irmão Fernando, que lá estavam para estudar. Eles formavam um grupo de 6 ou 8 pessoas, já não me recordo bem do número exato, e como a hora do jantar se aproximava minha mãe pediu-me para perguntar-lhes quem deles jantaria conosco. Acreditando que iriam deixá-la em uma saia justa todos se fizeram convidados, pois não esperavam que ela os acolhesse, já que nossa família tinha 6 membros. Minha mãe não teve dúvida, preparou na hora o jantar para 12 ou 14 pessoas, o qual foi um sucesso, como sempre. Minha mãe cozinhava magnificamente bem!  

A outra passagem ocorreu quando eu já estava na faculdade. Era sábado à tarde, eu e alguns amigos havíamos ido ao casamento de uma colega de classe. Como não houve festa e a cerimônia acabou cedo, eu resolvi convidá-los para esticarem até em casa. E quando começou a anoitecer minha mãe os convidou para jantar... 
Aqui faço um parêntese: Aos sábados era praxe a gente ter convidados para apreciar as pizzas que ela fazia – se bem que às vezes ela nos brindava com suas esfihas, cuja receita aprendera com uma de minhas amigas, Georgette Abiad, nascida em Damasco.  
Mas voltando ao relato, a maioria desses meus colegas ainda não conhecia minha mãe e quando eles se depararam com aquela mulher tão despachada e bem humorada, olharam para mim e disseram: “Ah, Rosa, o seu cartaz acabou. A gente pensava que você fosse autêntica, mas você é cópia de sua mãe” rsrsrs. E eu, em vez de ficar chateada, fiquei foi orgulhosa, pois, apesar de nossas diferenças de opiniões, eu achava a minha mãe o máximo!  
Minha casa era assim: sempre movimentada, sempre com convidados para almoços, jantares, lanches da tarde e até mesmo para hospedagem de pessoas queridas que necessitassem de abrigo, temporário ou não.  
São tantas as histórias saborosas associadas à minha mãe, às minha infância e adolescência e até mesmo à minha mocidade, que não cabem no espaço de um blog.  
Minha mãe faleceu pouco tempo depois de eu ter completado 27 anos, deixando, além de gratíssimas lembranças, uma saudade imensa!  
Encerro postando o link para uma música que a minha mãe amava e que a emocionava sempre que ela a ouvia, pois o mesmo ocorre comigo até hoje! Chama-se "Mamma son tanto felice" e eu escolhi uma versão que ainda não conhecia porque além de ser interpretada por uma mulher, Anna Liani, ela é à capella; afinal era assim que a minha mãe e eu cantávamos juntas esta canção!

quarta-feira, 24 de março de 2010

In Memorian de Victório Pacini, Meu Pai

                                                                                          
Se estivesse vivo, meu pai completaria hoje, 24/03, 108 anos, mas não chegou  nem aos 50. Italiano, nascido  na região da Toscana,  em um povoado rural chamado Casabasciana, ele veio, de navio, para o Brasil com 16 anos visando a fugir da guerra. E apaixonou-se por este país, que o acolheu e lhe deu oportunidades que lhe permitiriam alcançar quase tudo o que almejara. 

Casou-se relativamente tarde, aos 35, mas conseguiu construir um patrimônio sólido em um período inferior a 15 anos, contando sempre com a ajuda da minha mãe. Morreu aos 47 anos,  deixando viúva e 4 filhos: o mais velho, Gilberto, tinha 12 anos, a seguir vinham o Fernando, com 6 anos e as caçulas gêmeas (eu e a minha irmã, Maria Elisa) com 4 anos. Foi a morte prematura que o impediu de realizar o sonho de ver os filhos formados e/ou casados, portanto também o de conhecer seus netos e bisnetos.
                                                                  
 Ariano típico, ele sempre trabalhou por conta própria, como se dizia na época – a palavra “autônomo” era desconhecida até então.  Foi um empreendedor. Um verdadeiro vencedor, seja no setor industrial ou no da construção civil. Elegante, bonito, ele era um homem de bom gosto; sabia valorizar o belo e fazia questão de nos proporcionar o melhor padrão de qualidade de vida possível. Mas era também um homem sério, até mesmo rígido na maioria das vezes, conforme os padrões da época estabeleciam (década de 40), porém eu me lembro de momentos em que o seu bom humor se manifestava.
Dois anos antes de morrer ele voltou para a Itália com toda a família. A guerra havia acabado e ele queria não só rever sua mãe e irmãos, mas também apresentar-lhes a família que ele havia constituído no Brasil e da qual muito se orgulhava. Ficamos lá cerca de 3 meses e ainda hoje, com quase 65 anos, guardo lembranças daquele período!

Devo confessar que por um bom tempo eu guardei rancor do meu pai, pois minha memória infantil havia sido mais impactada pelos aspectos rígidos de sua personalidade. Mas com o passar do tempo, consegui me desapegar dessa visão distorcida para começar a enxergar meu pai como um ser humano rico de recursos, mas também com suas fragilidades; alguém que fez o melhor que pode em sua passagem por esta vida.

Hoje fiz a seguinte reflexão: Ainda bem que ele conseguiu voltar à Itália e reencontrar as suas origens. Esse revisitar o passado é importante para qualquer ser humano, pois permite que experiências sejam ressignificadas e que pontas soltas sejam amarradas; possibilita uma visão mais abrangente e madura sobre os processos vivenciados e o despertar de uma nova consciência sobre si mesmo e sobre o mundo em que vive. Essa viagem foi literal, mas poderia ter sido simbólica e mesmo assim provocaria algum tipo de resgate. 

Neste dia 24/03, a lembrança de seu aniversário também me fez resgatar, de algum modo, parte do meu passado. Ao fazê-lo pude compreender o que era aquela  energia tão especial que experimentei ao despertar, quando ainda nem havia "me dado conta" desta efeméride. Era o meu pai interior (animus) se manifestando com plena vitalidade, renascendo mais uma vez em mim, como que para me fazer lembrar que as qualidades do pai-herói ariano fazem parte do meu ser. 

O desbravador de novos horizontes, disposto a cruzar oceanos para viver novas experiências e lançar suas sementes em terras estrangeiras, habita em meu interior e hoje pede passagem para se manifestar mais vivamente em minha vida. Tal percepção me enche de disposição e me faz sorrir de gratidão. Gratidão por este resgate e por todas as descobertas que tenho feito nesta minha vida cada vez que permito a este “aventureiro” me conduzir pelos mares de novas experiências! 

O vídeo abaixo é em homenagem ao amor de meu pai pelo Brasil.